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A Arte de Normalizar o Feio

Recentemente, a cidade de Maputo foi palco de um evento de grande importância simbólica: a inauguração de uma nova estátua de Eduardo Mondlane, figura central da luta pela independência de Moçambique, e arquitecto da unidade nacional, no dia 25 de Setembro. Este acto, que deveria ser uma reafirmação do legado do líder histórico, acabou por ser acompanhado de um certo desconforto estético e cultural. A nova estátua, significativamente maior do que a anterior, que foi removida, levanta questões sobre o valor simbólico e artístico das obras públicas no país. Não se trata de um caso isolado: a proliferação de estátuas de estética duvidosa por todo o território moçambicano sugere uma tendência preocupante, que pode ser denominada “a normalização do feio”.

No mesmo dia em que a nova estátua foi inaugurada, começaram a surgir nas redes sociais várias críticas e comentários depreciativos. Imagens de outras estátuas, bustos e monumentos espalhados pelo país, muitos deles representando líderes históricos, circularam com os dizeres “vocês de Maputo são mimosos”, denotando a já recorrente prática de instalação de estátuas e monumentos de valor estético duvidoso em outras parcelas do país. Além disso, surgiram vozes que questionaram o processo que levou à criação da estátua, um património público, isto é, do povo, sem procedimentos claros. Foi sugerido que se fizesse um concurso público e transparente para a avaliação e escolha da melhor proposta, tanto artística quanto financeira. Até ao momento, não se sabe ao certo o valor gasto na obra, o que contribui para um clima de secretismo. Outros questionaram a pertinência da nova obra, uma vez que, para eles, a estátua anterior não apresentava falhas significativas, e não houve uma comunicação clara e aberta que justificasse a necessidade da sua remoção. Ou seja, o processo em si careceu de transparência e responsabilidade.

O Papel da Estética no Espaço Público

A arte pública, sobretudo estátuas e monumentos, desempenha um papel crucial na maneira como uma sociedade reflecte sobre si mesma, a sua história e os seus valores. Ao ocuparem praças, ruas e avenidas, essas obras tornam-se parte do quotidiano das pessoas e contribuem para a formação da identidade visual e simbólica dos espaços urbanos. Em Maputo, como noutras cidades moçambicanas, o número crescente de monumentos e estátuas com qualidade estética questionável levanta preocupações sobre como a arte pública está a ser concebida e recebida pela população.

A nova estátua de Eduardo Mondlane, apesar de maior e ostensivamente mais imponente, não escapou às críticas. Para muitos, a sua concepção parece apressada e desprovida do cuidado artístico necessário para honrar a importância histórica do homenageado. A antiga estátua, menor e mais discreta, que foi removida, talvez não fosse perfeita, mas a sua substituição por uma obra de estética duvidosa gerou discussões sobre as prioridades e os critérios usados na criação e instalação de tais monumentos.

Uma das grandes críticas à nova estátua de Eduardo Mondlane centra-se na sua anatomia, simetria e proporção, com destaque para a desproporção entre a cabeça e o resto do corpo e igualmente os braços.Alguns chegaram a afirmar que o rosto da estátua não faz jus ao homenageado, sendo uma representação pouco fiel, assemelhando-se a uma caricatura.

Os defensores da nova estátua apresentaram como argumento a favor a experiência do seu autor, responsável também pela estátua de Filipe Samuel Magaia, situada na cidade de Maputo, considerada esteticamente aceitável. No entanto, a figura de Magaia, menos divulgada na memória pública, não possui a mesma carga comparativa que Eduardo Mondlane, cuja imagem já era familiar, incluindo a estátua anterior que poderia ter servido de referência. Um escritor moçambicano argumentou que o conceito por detrás da nova estátua procurava mostrar um Mondlane humano, com falhas, não heróico, apartado da mitologia que o cerca. Contudo, este argumento ignora o propósito da construção da estátua, uma vez que o processo não envolveu diálogo público, sendo misterioso até à sua conclusão, circunscrito a um pequeno círculo de artistas e gestores culturais, presumivelmente ligados ao governo ou ao ministério responsável pela cultura. Para além disso, houve quem alegasse que as críticas à estátua faziam parte de um “expediente” contra o autor, algo que ecoou em outros intelectuais, que questionaram a capacidade dos críticos. Este posicionamento, no entanto, desconsidera a opinião popular, amplamente expressa nas redes sociais, onde a maioria reprovava a nova estátua.

A Proliferação do Feio

A nova estátua de Mondlane não é um caso isolado. Em várias cidades do país, há uma tendência para a instalação de monumentos que, em vez de embelezarem o espaço público, provocam desconforto visual. Estes monumentos parecem ser o produto de uma falta de diálogo entre a arte e a comunidade que os recebe. Num caso recente, na cidade de Pemba, houve uma manifestação popular contra um monumento pintado por um artista plástico, que a população alegava não representar os desígnios do povo, as suas aspirações e a realidade que viviam. O impacto visual negativo vai além do desconforto estético imediato: revela uma cultura de conformismo que pode corroer o valor simbólico da arte pública.

A normalização de estátuas mal concebidas ou “feias” torna-se perigosa quando deixamos de questionar o valor das obras que preenchem os nossos espaços urbanos. O “feio” passa a ser aceito como parte do cenário, banalizando o significado da arte e desvalorizando a função que as estátuas deveriam desempenhar: a de homenagear, inspirar e provocar reflexões.

O Impacto na Cultura e Identidade

O perigo de normalizar o feio nas obras públicas vai além do aspecto visual. Monumentos como as estátuas são, na sua essência, artefactos culturais que carregam consigo o peso da história e da identidade de uma nação. Quando são mal concebidos ou de fraca qualidade estética, o risco é que o simbolismo por detrás da homenagem também seja diluído. As gerações futuras podem ver essas representações e associá-las a um desleixo na preservação da memória histórica.

No caso de Eduardo Mondlane, a monumentalidade da nova estátua tenta, à primeira vista, exaltar a sua importância. Contudo, a alegada má execução da obra contraria esse esforço. Uma estátua que deveria evocar respeito e reverência pelo fundador da FRELIMO acaba por gerar discussões focadas no seu aspecto estético, em detrimento do legado do próprio Mondlane. Esse descompasso entre intenção e realização não só afecta a percepção do público, mas também desvaloriza a obra de arte como um todo, criando uma desconexão entre o monumento e o seu significado simbólico.

O Preço de Ignorar a Qualidade

Um dos aspectos mais preocupantes desta tendência é a falta de critérios rigorosos na escolha dos artistas e das concepções para esses monumentos. A pressa em instalar obras públicas, sem o devido cuidado com a qualidade artística, contribui para a proliferação de estátuas que em nada elevam o cenário cultural do país. Quando a estética é ignorada em prol de uma rápida concretização, a arte pública perde o seu poder de intervenção crítica e inspiradora.

Além disso, quando a população se habitua a obras de arte mal concebidas, cria-se uma cultura de apatia em relação à arte e ao espaço público. O que deveria ser um ponto de encontro para a reflexão colectiva torna-se um elemento banalizado, apenas mais uma peça na paisagem urbana. Este descuido pode, a longo prazo, minar o apreço pela arte e pela história, desestimulando artistas e críticos a buscarem novos patamares de excelência.

O Futuro da Arte Pública em Moçambique

Para reverter esta tendência, é urgente que haja um maior diálogo entre criadores, gestores públicos e comunidades em torno da arte pública. Uma estátua não é apenas um símbolo de poder ou homenagem, mas uma obra de arte que se insere no tecido cultural de uma sociedade. As cidades moçambicanas merecem obras que, além de representar figuras históricas importantes, sejam também visualmente agradáveis, inspiradoras e cuidadosamente executadas.

A nova estátua de Eduardo Mondlane é um exemplo do impacto que a arte pública pode ter, tanto positivo quanto negativo. Embora a intenção seja honrosa, a dita execução falha mostra que a monumentalidade, por si só, não é suficiente para garantir o respeito ao legado de figuras históricas. A qualidade artística deve estar no centro destas iniciativas, sob o risco de normalizarmos o feio e, com ele, a banalização da nossa história.

Em última análise, o debate sobre a arte pública em Moçambique é um convite para que todos – gestores, artistas e cidadãos – reflictam sobre o tipo de legado visual e cultural que queremos deixar. A beleza, nas suas várias formas, não é apenas um capricho, mas uma necessidade para preservar o significado das homenagens e, acima de tudo, para manter viva a relação entre arte e sociedade.

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